Empreender é transformar uma ideia em negócio. Mas transformar um negócio em marca exige visão estratégica. Em um cenário onde mulheres empreendem cada vez mais, muitas vezes sozinhas, com recursos limitados e alta exposição digital, registrar a marca deixou de ser um detalhe jurídico para se tornar uma decisão essencial de proteção, posicionamento e crescimento.
Para entender por que esse passo ainda é negligenciado por tantas empreendedoras, o Portal Eliana Gorritti conversou com Débora Brito, advogada e mediadora de conflitos, sócia do escritório BRITO SILVA ADVOCACIA e CEO da SavvyMark Proteção de Marcas, que alerta: “Não registrar a marca é abrir mão do controle sobre o próprio negócio”. Segundo ela, a ideia de que o registro é caro ou excessivamente burocrático ainda afasta muitas mulheres, e esse é um dos mitos mais prejudiciais ao crescimento de um negócio.
Para Débora Brito, a percepção de que o registro de marca é inacessível não se sustenta na prática.
“É um mito, e um mito caro. Registrar uma marca não é caro quando comparado ao prejuízo de não registrar. Hoje, além dos honorários profissionais, quem busca proteger sua marca paga apenas a taxa do INPI, que gira em torno de R$ 440, com desconto para MEI, ME e EPP, podendo chegar a cerca de R$ 1.720, a depender do tipo de pedido. O processo é administrativo e, quando conduzido de forma estratégica, deixa de ser burocrático”, explica.
Segundo a advogada, o verdadeiro custo está em investir tempo, dinheiro e reputação em uma marca que, no futuro, pode simplesmente não poder ser usada.
Marca é patrimônio, mesmo antes de faturar alto
Um erro comum entre empreendedoras iniciantes é acreditar que o registro da marca só faz sentido quando a empresa já está consolidada. Segundo Débora Brito, essa percepção é equivocada. Para ela, o momento ideal para iniciar o processo de registro é muito mais cedo do que se imagina.
“A marca nasce junto com o negócio. Desde o momento em que ela é divulgada, usada nas redes sociais ou aplicada em um produto ou serviço, ela já está exposta a riscos”, explica.
O registro garante exclusividade de uso em todo o território nacional dentro do segmento de atuação. Sem ele, a empreendedora pode ser impedida de usar o próprio nome comercial, mesmo após anos de trabalho e investimento.
“O melhor momento para registrar é assim que o nome surge como uma possibilidade real de uso comercial. Marca não se protege depois do sucesso, ela se protege para que o sucesso seja possível com segurança”, orienta. Muitos negócios só buscam proteção quando já ganharam visibilidade. Nesse estágio, os riscos jurídicos são maiores e as perdas, potencialmente irreversíveis.
Muitas mulheres só percebem a importância do registro quando o problema já existe: uma notificação extrajudicial, um perfil bloqueado nas redes sociais ou a impossibilidade de expandir o negócio. “É comum receber clientes que cresceram, ganharam visibilidade e, justamente por isso, passaram a ser questionadas juridicamente. Crescer sem proteção é crescer vulnerável”, destaca Débora.
Em um mercado digital, onde marcas pessoais e comerciais se misturam, o risco é ainda maior para mulheres que usam o próprio nome ou apelidos criativos como identidade profissional. Débora Brito alerta que abrir CNPJ, registrar domínio ou criar perfis em redes sociais não garante direito sobre a marca.
“Esse é um dos erros mais comuns. A abertura do CNPJ, o domínio de site ou o Instagram não garantem direito marcário. Outro erro frequente é não fazer uma pesquisa técnica adequada ou registrar de forma genérica demais, o que enfraquece a proteção. A marca precisa ser tratada como ativo estratégico, não como detalhe”, afirma.
É possível perder a marca mesmo sendo o criador do nome?
A resposta é direta: sim.
“No Brasil, o direito à marca nasce com o registro, não com a criação. Quem registra primeiro, dentro da legalidade, tem prioridade. Além disso, marcas que não são usadas podem ser perdidas por caducidade. Criar não é o mesmo que proteger”, explica Débora.
Casos como esses são mais comuns do que se imagina e costumam gerar frustração, prejuízo financeiro e, muitas vezes, a necessidade de recomeçar do zero.
Outro ponto que afasta muitas empreendedoras é o medo do custo ou da burocracia. Mas, na prática, o valor do registro é pequeno quando comparado às perdas que podem ocorrer sem ele.
“Registrar a marca é investir em segurança jurídica, valor de mercado e tranquilidade para crescer”, afirma a advogada.
Além da proteção, a marca registrada pode ser licenciada, vendida, usada como ativo em negociações e valorizada em processos de expansão.
“Uma marca registrada deixa de ser apenas um nome e passa a ser um ativo empresarial, juridicamente protegido e economicamente valorizável. O registro permite escalar, licenciar, franquear e expandir com segurança”, destaca a especialista.
Ao falar especificamente sobre mulheres empreendedoras, Débora Brito chama atenção para um comportamento recorrente.
“Muitas mulheres constroem negócios incríveis, mas colocam a si mesmas em segundo plano. Validam a ideia, atendem clientes, entregam valor, mas subestimam o próprio negócio, como se ele ainda não merecesse proteção. Proteger a marca é um ato de autovalorização e de visão de longo prazo. Já vi muitas mulheres desistirem dos seus sonhos porque perderam suas marcas.”
Para além do aspecto jurídico, registrar a marca é um gesto de liderança e maturidade empreendedora. É assumir que o negócio tem futuro, direção e identidade. Mulheres empreendedoras já enfrentam desafios estruturais diários. Não proteger a própria marca é adicionar um risco desnecessário a uma jornada que já exige coragem, resiliência e visão. Além disso, a ausência do registro impacta diretamente o valor do negócio em processos de venda ou atração de investidores.
Marca registrada aumenta o valor do negócio?
“Sem dúvidas. A marca registrada é um ativo mensurável e faz diferença direta no valor do negócio. Investidores cautelosos não colocam capital em empresas que podem perder sua marca. O registro garante segurança jurídica, previsibilidade e fortalece o posicionamento da empresa”, afirma Débora.
Segundo ela, investidores avaliam não apenas faturamento, mas também estrutura, proteção e potencial de escala. Um negócio sem marca registrada perde valor, poder de negociação e oportunidades.
Débora Brito reforça que o primeiro passo é buscar orientação especializada antes mesmo de investir mais tempo e dinheiro no negócio.
“Pare tudo e faça uma análise estratégica da sua marca agora. Antes de investir mais tempo, dinheiro e energia, verifique se esse nome pode ser seu de verdade. Quem ignora isso, paga o preço depois”, orienta.
Registrar a marca não é apenas uma formalidade legal. É um ato de proteção, estratégia e respeito com a própria história empreendedora.



