A busca por conhecimento é, sem dúvida, uma virtude. Mas em tempos de pressão por relevância e validação constante, até a formação contínua pode se tornar um vício silencioso, disfarçado de progresso. Nunca se estudou tanto, nunca se investiu tanto em capacitação, e nunca se viu tanta gente travada na hora de agir. Estamos vivendo uma era em que aprender virou um refúgio sofisticado para não se expor.
Mais um curso. Mais um certificado. Mais um programa de desenvolvimento. A lógica é sedutora, parece que quanto mais você se prepara, mais estará pronto. Mas, em muitos casos, o que está por trás não é sede de conhecimento, é medo de começar, de se posicionar, de errar em público, de ser julgado sem título que defenda a sua fala.
Falo com propriedade, não só como observadora desse fenômeno, mas como alguém que está dentro dele. Tenho pós-doutorado, certificados em múltiplas áreas, formações internacionais e cursos online em andamento neste momento. Já acumulei diplomas que não cabem em uma única linha de apresentação. E, ainda assim, em muitos dias, sinto que não é o bastante. Carrego o que chamo de FOMO acadêmico, o medo de estar ficando para trás mesmo com toda a bagagem que já conquistei. Como se sempre houvesse algo que ainda não sei, uma lacuna que me impede de agir com segurança plena.
Esse sentimento não é pessoal, é estrutural. A hiperformação virou uma forma de adiar a prática, de justificar a paralisia. Profissionais altamente qualificados, com currículos robustos, muitas vezes se sentem inseguros para oferecer um serviço, lançar um produto ou liderar uma ideia. Sentem que ainda falta algo, que precisam de mais uma especialização, mais uma certificação, mais um selo de validação externa.
Esse comportamento, alimentado pela indústria da educação executiva e pelos discursos de alta performance, cria um ciclo de dependência. O saber nunca é suficiente. O currículo nunca está completo. A confiança nunca chega. E, com isso, a ação é adiada indefinidamente.
É claro que formação tem valor, principalmente em um mundo que muda rápido. Mas há uma diferença entre aprender para expandir repertório e estudar para evitar confronto com o mundo real. O conhecimento não pode ser um escudo contra a exposição. Nem um álibi para não se comprometer com o que já se sabe.
Muitas vezes, a solução não está em mais conteúdo, mas em mais coragem. Coragem de usar o que já foi aprendido. Coragem de errar com o que se tem. Coragem de construir com o que está à mão. Porque o excesso de capacitação pode, paradoxalmente, gerar a sensação de insuficiência permanente.
A armadilha da hiperformação também tem raízes culturais. Profissionais negros, mulheres, pessoas de origem periférica ou com trajetórias não lineares são frequentemente os mais afetados. O mercado exige que estejam sempre um passo à frente para serem levados a sério. Como se tivessem que provar, antes de atuar, que são mais preparados do que os outros. Essa cobrança silenciosa alimenta o ciclo da formação infinita como mecanismo de sobrevivência, não de escolha.
É preciso coragem institucional e pessoal para romper com essa lógica. Recolocar o aprendizado no lugar certo, como ferramenta, não como identidade. Valorizar o saber prático, o erro processual, o desenvolvimento que vem da experiência real, do campo, da entrega.
Aprender é vital. Mas transformar conhecimento em impacto exige algo que nenhum diploma entrega, a disposição de se arriscar com o que já se sabe. E isso, em muitos casos, é o passo mais difícil, mais necessário e mais urgente.



