Antes de qualquer mulher falar em uma reunião, subir ao palco ou assumir uma posição de liderança, ela já foi lida. A roupa, a postura, os gestos, o cabelo, os acessórios e até o silêncio comunicam. A imagem chega antes da fala, e muitas vezes decide como essa fala será recebida.
Por muito tempo, discutir imagem feminina foi tratado como vaidade. Hoje, em ambientes profissionais cada vez mais competitivos e visuais, essa leitura é não só ultrapassada, como perigosa. Imagem é linguagem. E, quando usada com intenção, torna-se estratégia.
Para a consultora de imagem estratégica Jani Valença, a virada acontece quando a aparência deixa de buscar aprovação e passa a sustentar posicionamento.
“Imagem estratégica não é sobre agradar, é sobre ser respeitada. Ela existe quando há intenção, coerência e objetivos claros, alinhando aparência, conteúdo, comportamento e discurso”, afirma.
Mesmo com avanços evidentes no mercado de trabalho, mulheres que utilizam a imagem de forma consciente ainda enfrentam resistência. O motivo, segundo Jani, está enraizado em um discurso antigo e limitador.
“Ouvimos a vida inteira que só precisávamos ser boas profissionalmente. Mas hoje não basta ser boa, é preciso parecer ser boa e sustentar essa percepção.”
Enquanto algumas mulheres já entenderam que imagem estratégica, verdadeira e intencional gera melhores resultados, outras ainda se sentem culpadas ou julgadas por investir nessa construção. O paradoxo é evidente: cobra-se autoridade, mas questiona-se o caminho até ela.
Quando o assunto é autoridade feminina, dois extremos costumam enfraquecer a presença: a rigidez excessiva e a tentativa constante de agradar.
A rigidez cria distância, constrói uma imagem “intocável”. Já o desejo de agradar transmite permissividade. Nenhum dos dois sustenta liderança no longo prazo.
“Infelizmente, não vamos agradar todo mundo”, lembra Jani.
A autoridade nasce do equilíbrio: firmeza sem dureza, empatia sem submissão.
Não existe imagem neutra
Uma das ideias centrais da imagem estratégica é simples, e muitas vezes ignorada: toda imagem comunica.
“Nossa fala, gestos, postura corporal e humana, vestimenta, acessórios, cabelo… tudo transmite mensagens. Mesmo quando você acha que não está transmitindo.”
O problema é que, quando essa mensagem chega desalinhada, o impacto é direto no cliente, na equipe e nas oportunidades. E, como reforça a especialista, a responsabilidade pela comunicação é de quem emite.
“Se há falha na comunicação, ela precisa ser ajustada. Conteúdo, conhecimento e imagem precisam caminhar juntos.”
Alinhar imagem, discurso e valores não exige personagem, exige clareza. Para líderes, a imagem só fortalece quando nasce da identidade.
“A autenticidade está em usar a imagem como extensão de quem se é, e não como um papel a ser interpretado.”
Quando aparência, comportamento e comunicação caminham em coerência, a liderança se consolida, gera confiança e cria conexão genuína com equipes e clientes.
Presença também é liderança
Entre os equívocos mais comuns, Jani aponta um que passa despercebido, e custa caro: não se posicionar visualmente.
“Ser boa no que faz já foi diferencial. Hoje, não é mais.”
Muitas mulheres extremamente competentes cresceram profissionalmente, mas mantiveram uma imagem desconectada da profissional que se tornaram. O resultado é um ruído de comunicação que impacta reconhecimento, promoção e valorização.
“A imagem não acompanhou o crescimento. E, muitas vezes, oportunidades são perdidas por essa desconexão.”
Imagem não substitui competência. Mas competência sem imagem estratégica, hoje, perde força.
No fim, a discussão não é sobre estética, tendências ou padrões. É sobre presença. Sobre coerência. Sobre ocupar espaços com consciência.
Imagem é discurso. E toda líder, queira ou não, está sempre comunicando.



