À frente da Del Veneto, empresa de suínos premium em São José dos Campos (SP), a empresária Flávia Brunelli construiu um modelo que não nega sua origem, mas a transforma em ativo estratégico. Em vez de descartar a base construída ao longo do tempo, ela a reorganizou sob uma lógica contemporânea de mercado: controle de cadeia, posicionamento de marca e construção de valor.
No agro de hoje, produzir bem deixou de ser diferencial. Tornou-se premissa.
O que separa negócios que crescem daqueles que apenas sobrevivem é a capacidade de traduzir técnica em percepção. Foi nesse ponto que a virada aconteceu.
“Quando percebi que técnica garante qualidade, mas não garante percepção de valor. O agro brasileiro é altamente técnico, mas ainda comunica pouco o valor por trás de todo o trabalho de quem produz. Quem domina narrativa domina margem. E margem sustenta o crescimento dos negócios.”
A leitura não é trivial. Durante décadas, o setor estruturou sua competitividade com base em escala, eficiência e preço. Mas, à medida que o consumidor se distancia do campo e se aproxima de marcas, experiência e propósito, essa lógica começa a mudar.
E exige reposicionamento. Na Del Veneto, a identidade não nasceu da comunicação. Nasceu da prática.
“Ela é construída todos os dias, nas decisões que parecem pequenas, mas que definem quem somos. Começa na escolha da raça Duroc, no cuidado com a criação, na exigência com padrão de corte, na decisão de manter controle sobre a cadeia.”
A operação sustentou o discurso. E isso não é detalhe, é estratégia.
“Se a operação não sustenta o que acreditamos, nada mais sustenta.”
A verticalização, a rastreabilidade e o rigor técnico não são apenas diferenciais produtivos. São fundamentos de posicionamento. Foi o que permitiu à marca não disputar preço. Alguns pilares nunca estiveram em negociação: entre eles, a origem controlada, a qualidade genética do suíno Duroc, a rastreabilidade direta da fazenda, o respeito ao ingrediente e o posicionamento premium.
Mas, ao longo do caminho, uma mudança se mostrou decisiva: a forma de comunicar.
“No início, eu comunicava muito produto. Hoje, comunico mais cultura, propósito e visão estratégica. Produto vende. Narrativa constrói valor.”
A frase sintetiza uma transformação silenciosa, e ainda pouco compreendida, no agro.

Narrativa como ativo econômico
Quando a comunicação deixa de ser descritiva e passa a ser estratégica, o impacto vai além da imagem. Muda o lugar que a empresa ocupa no mercado.
“Quando você explica genética, marmorização, manejo, sustentabilidade, processo artesanal, você sai do lugar de fornecedor e passa a ocupar o lugar de marca. E marca não disputa preço. Marca constrói valor.”
É nesse ponto que técnica e narrativa deixam de competir e passam a operar juntas. Uma sustenta. A outra amplifica. Sem consistência operacional, a narrativa não se sustenta. Sem narrativa, o valor não é percebido.
Entre todas as escolhas, uma exigiu mais convicção do que qualquer outra: não competir por preço.
“Decidir que eu não queria ser mais uma indústria convencional. Queria ser referência de altíssima qualidade. Isso exige paciência, investimento em marca, educação de mercado e consistência.”
A decisão contraria a lógica dominante de curto prazo e expõe um dos principais desafios do setor: posicionamento não é discurso. É renúncia.
“Entendi cedo que posicionamento não se constrói no curto prazo.”
Reinventar sem romper
Ao contrário do que muitos imaginam, inovar no agro não exige romper com a origem. Exige compreender o que, nela, é essência, e o que é apenas hábito.
Na prática, isso significa transformar tradição em estratégia. Não se trata de preservar o passado, mas de dar direção a ele.
Em um mercado cada vez mais orientado por percepção, marca e experiência, quem não constrói narrativa tende a disputar preço. E quem disputa preço, cedo ou tarde, perde margem.
Flávia escolheu outro caminho. Reorganizou a base, estruturou a operação e reposicionou a comunicação. Sem ruptura. Com intenção.
E é dessa leitura que surge a definição do que está por vir:
“O agro do futuro será técnico, sustentável, estratégico e narrativo. Quem souber produzir com excelência e comunicar com inteligência liderará a próxima década.”
No agro que se redesenha, não vence apenas quem produz melhor. Vence quem constrói significado.



