autoridade sem pedir licenca a jovem do agro que elevou a carne suina ao protagonismo antes dos 30

Autoridade sem pedir licença: a jovem que, antes do 30, se tornou referência no agro ao elevar a carne suína ao protagonismo

Em um setor onde a tradição pesa e a autoridade costuma ser associada à idade, Flávia Brunelli, de 31 anos, construiu legitimidade cedo e com consistência. Fundadora da Del Veneto, empresa verticalizada de suínos premium em São José dos Campos (SP), ela transformou um projeto familiar em um modelo estratégico que conecta genética, rastreabilidade, posicionamento de marca e alta gastronomia. Em 2023, foi reconhecida pela Forbes Brasil na lista Under 30, não como promessa, mas como entrega consolidada.

Com uma trajetória marcada por trabalho incansável, persistência, foco e fé, Flávia não apenas deu continuidade à tradição familiar como também a reposicionou.

Mas a construção dessa autoridade não foi automática.

“A maior dificuldade foi o fato de eu ser mulher e jovem. As pessoas não davam tanta credibilidade para mim. Mas, mais do que ser mulher, eu sou zero vítima. Acho que a gente tem que trabalhar e fazer o nosso melhor. Eu entrego o meu melhor.”

A juventude também era questionada.

“As pessoas julgavam. ‘Ah, o que essa menina tá falando? O que ela tá fazendo?’”

Especialmente no início, ela tentou se adaptar ao padrão dominante.

“Já tentei liderar reproduzindo um modelo masculino. Usava roupas largas, me escondia, diminuía minha expressão feminina para tentar me sentir mais inteira em ambientes predominantemente masculinos. Com o tempo, entendi que liderança não é sobre parecer com alguém. É sobre sustentar quem você é com firmeza.”

Hoje, a postura é outra.

“Hoje eu não tento provar que sou capaz. Eu entrego. E entrego com conhecimento, estratégia e visão de longo prazo. Quando você deixa de buscar validação e começa a gerar resultado, a dinâmica muda.”

Havia ainda um desafio estratégico: introduzir no mercado brasileiro um produto artesanal em uma cadeia acostumada à velocidade e ao volume.

Quando alugou pela primeira vez uma sala de desossa para trabalhar cortes mais elaborados, ouviu previsões negativas:

“Flávia, isso não vai dar certo. Demora muito esse corte, é muito artesanal. O mercado não vai querer pagar mais caro por um produto diferenciado.”

Era um ambiente que testava convicção diariamente. Foi nesse contexto que ela entendeu algo essencial sobre liderança no campo: no agro, autoridade não é concedida, é construída.

“Percebi quando entrei em reuniões técnicas e percebi que ninguém iria me validar pelo cargo ou pela intenção. No agro, autoridade não é um título. É consistência. É resultado. É tomada de decisão sob pressão.”

Ela compreendeu que, para ser ouvida, precisaria dominar cada etapa da operação.

“Entendi que, se eu quisesse ser ouvida, eu precisaria dominar números, entender genética, margem, cadeia produtiva, logística, posicionamento de marca e estratégia.

A partir do momento em que você fala com propriedade, o ambiente muda. Não porque te concederam espaço, mas porque você construiu competência.”

Alguns erros a ensinaram a liderar com firmeza.

“Centralizar demais. Querer fazer tudo. Postergar conversas difíceis. Depois de muitos erros e acertos, aprendi que liderança exige confronto construtivo. A liderança é solitária em muitos momentos. Nem toda decisão agrada. Mas decisões precisam ser tomadas com clareza e responsabilidade.”

A partir daí erro deixou de ser uma fragilidade.

“Erro não é fraqueza. É ferramenta de maturidade e crescimento.”

Houve situações em que você precisou se posicionar antes de ser validada? O que sustentou essa decisão?

“Diversas. Reposicionar a carne suína como produto diferenciado e premium foi uma dessas decisões. Muitos modelos consolidados no setor trabalham volume e preço. Eu escolhi trabalhar diferenciação, genética do Duroc, marmorização, storytelling, experiência gastronômica.”

Ela sabia que estava contrariando uma lógica dominante no mercado.

“Não havia garantia de validação. O que sustentou foi convicção estratégica. Eu sabia que, no longo prazo, construir marca gera mais valor do que disputar commodity.”

A carne suína, por muito tempo, esteve fora do chamado “panteão das proteínas nobres” no Brasil. Flávia enxergou ali uma oportunidade estratégica.

Ao estruturar um projeto verticalizado, da criação familiar ao abate, porcionamento e venda, ela assumiu controle total da cadeia e decidiu disputar valor, e não preço.

Com foco em genética Duroc, marmorização e cortes artesanais, a Del Veneto passou a se tornar referência nacional em suínos premium. O reconhecimento veio da alta gastronomia. Chefs como Alex Atala, do D.O.M. (duas estrelas no Guia Michelin), e Renato Carioni, do Cosi, apoiaram o trabalho sofisticado desenvolvido por ela.

Foi justamente essa atuação estratégica e inovadora que levou Flávia à lista Forbes Under 30 em 2023. Não como promessa, mas como entrega.

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Quando uma mulher jovem ocupa o agro

Como você equilibra escuta e autoridade no dia a dia da gestão?

“Escutar não é perder autoridade. É ampliar repertório. Eu escuto minha equipe, produtores, chefs, clientes, números e mercado. Mas a decisão final precisa ter direção. Liderança não é democracia permanente. É responsabilidade final. Autoridade não é rigidez, e sim coerência.”

O que muda quando uma mulher jovem ocupa espaços de decisão em um setor historicamente masculino?

“Muda a perspectiva e o padrão de decisão. Em setores historicamente masculinos, muitas decisões foram tomadas com foco quase exclusivo em produção, escala e resultado imediato. Desde o início da minha trajetória, há quase nove anos, eu questionei modelos que sempre foram feitos do mesmo jeito. Perguntava o porquê. Isso gera desconforto no começo, mas gera evolução.”

Ela aponta que a diferença não está na disputa, mas na ampliação de leitura estratégica.

“Mulheres costumam integrar mais variáveis na tomada de decisão. Consideramos impacto humano, cultura, marca, reputação, sustentabilidade e longevidade. Não é apenas sobre produzir mais. É sobre posicionar melhor.”

Para ela, o agro contemporâneo exige essa mudança de mentalidade.

“Quando uma mulher jovem ocupa um espaço de decisão, ela amplia o campo de visão do negócio. Traz uma leitura mais integrada entre produto, consumidor final, imagem da marca e futuro da empresa.”

“No agro contemporâneo, não basta produzir bem. É preciso construir marca, contar história, dialogar com o consumidor urbano, pensar em ESG e governança. Essa visão multidimensional deixou de ser diferencial e passou a ser necessidade estratégica.”

Ela não trata como competição de gênero, mas como evolução de modelo.

“Não é sobre ser melhor ou pior. É sobre ampliar o repertório estratégico. E quem enxerga além da porteira constrói vantagem competitiva real.”

“Uma liderança feminina jovem traz escuta ativa, firmeza com empatia e visão de longo prazo. E isso não enfraquece o negócio, pelo contrário: fortalece.”

Se liderança fosse uma decisão diária, qual escolha você faz todos os dias?

“Escolho não terceirizar responsabilidade. Escolho tomar decisões difíceis mesmo quando não existe cenário perfeito. Escolho sustentar visão de longo prazo, mesmo sob pressão de curto prazo. Liderança é constância.”

Hoje, aos 31, ela sustenta o que começou bem antes dos 30: visão de longo prazo, decisões difíceis e responsabilidade inegociável.

Autoridade, no agro, não nasce da idade. Nasce da constância. Quando disseram que não daria certo, ela não debateu. Entregou. E o mercado reconheceu.

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