O medo de errar, o perfeccionismo excessivo e a dificuldade de se posicionar continuam entre os principais obstáculos no caminho de quem busca avançar na carreira. Curiosamente, esses sabotadores costumam surgir com mais força justamente quando o profissional está pronto para dar um salto.
Segundo Flávia Chaves, especialista em Formação de Líderes, Mentoria Corporativa e Desenvolvimento de Alto Desempenho, diretora no IVG, Instituto Vasselo Goldoni e fundadora da FCF Consultoria, a autossabotagem raramente está ligada à falta de competência técnica.
“Muitas vezes, o que levou a pessoa até determinado patamar passa a ser exatamente o que a impede de avançar”, afirma.
Na experiência de Flávia atuando na formação de líderes e executivos, alguns sabotadores aparecem de forma recorrente quando o profissional está prestes a assumir novos desafios: perfeccionismo, medo da exposição, dificuldade de se posicionar, excesso de responsabilidades assumidas e a crença persistente de que “ainda não estou pronta”.
“O crescimento exige uma mudança de identidade profissional. Ser excelente tecnicamente não garante sucesso em níveis mais altos, onde o foco deixa de ser execução e passa a ser influência, visão e tomada de decisão. Muitos tentam subir fazendo mais do mesmo”, explica.
Esse desalinhamento entre competência e comportamento cria um bloqueio silencioso, mas determinante. De acordo com a especialista em desenvolvimento de alto desempenho, comportamentos limitantes são sustentados por crenças invisíveis, muitas vezes construídas ao longo da carreira.
“Existem hábitos profundamente enraizados, como evitar conflitos ou buscar aprovação constante, que sabotam a autoridade e o impacto do líder.”
No dia a dia das empresas, a autossabotagem se manifesta de forma clara: profissionais que não se posicionam em reuniões, líderes que centralizam decisões, talentos que trabalham demais e aparecem de menos, conflitos evitados e decisões estratégicas constantemente adiadas.
“Tudo isso custa tempo, inovação e resultado”, alerta a diretora do IVG.
Embora frequentemente associados à excelência, o perfeccionismo e o medo de errar continuam sendo grandes bloqueios no ambiente corporativo.
“O perfeccionismo cria lentidão, sobrecarga e silêncio estratégico. A autocrítica excessiva consome energia que deveria ser usada para decidir e influenciar”, afirma Flávia Chaves.
Ela é categórica ao destacar que errar faz parte do processo de liderança.
“Errar faz parte da liderança. Não decidir é o erro mais caro.”
Ambientes competitivos reforçam sabotadores internos
Segundo a fundadora da FCF Consultoria, ambientes corporativos altamente competitivos tendem a intensificar esses sabotadores, especialmente quando competitividade é confundida com comparação constante.
“Em vez de colaboração estratégica, instala-se o medo de errar, de falar, de ocupar espaço. É um terreno fértil para a autossabotagem.”
Nesse contexto, muitos profissionais evitam o protagonismo por receio da exposição e do julgamento.
“O protagonismo exige visibilidade, e visibilidade traz julgamento”, pontua.
Mulheres e autossabotagem: uma diferença cultural
Flávia Chaves observa que há diferenças claras na forma como homens e mulheres lidam com esses bloqueios.
“As mulheres tendem a internalizar mais o erro e a duvidar de si. Os homens costumam avançar mesmo sem se sentirem totalmente prontos.”
Ela reforça que essa diferença não é biológica, mas cultural, e, portanto, passível de mudança.
“Muitas mulheres foram educadas para contribuir, não para se destacar. Isso precisa ser ressignificado.”
Para a especialista em mentoria corporativa, até é possível alcançar cargos de liderança sem trabalhar os sabotadores internos, mas sustentar esse lugar torna-se um grande desafio.
“Sem consciência desses bloqueios, o risco de burnout, insegurança e queda de performance é alto.”
O primeiro passo, segundo ela, é a consciência.
“É preciso nomear o sabotador e entender: ‘isso me trouxe até aqui, mas não me levará adiante’.”
A mentoria corporativa, na avaliação de Flávia, acelera de forma significativa o desenvolvimento de líderes.
“A mentoria encurta caminhos porque oferece espelhamento, questionamento estratégico e segurança para testar novos comportamentos com consciência.”
Entre as práticas que ela recomenda para neutralizar sabotadores no dia a dia da liderança estão: Revisar semanalmente onde o profissional está se escondendo;
Treinar posicionamento claro; Pedir feedback estratégico; Delegar com intenção e Investir em mentoria contínua.
Para quem sente que está pronto para crescer, mas percebe que algo sempre impede esse avanço, Flávia Chaves deixa um conselho direto:
“Pare de tentar ser impecável e comece a ser intencional. Crescimento exige coragem para desaprender hábitos que já não servem mais.”
Ao final, ela resume o que realmente diferencia líderes no cenário atual:
“A competência técnica é o ingresso. A inteligência emocional, relacional e estratégica é o que mantém o líder no topo. Hoje, lidera quem influencia, não quem apenas executa bem.”



