cansaco constanter entre adultos jovens acende alerta para disturbios do sono

Cansaço constante entre adultos jovens acende alerta para distúrbios do sono

Rotina intensa faz muita gente normalizar a exaustão, mas especialistas afirmam que o problema pode indicar alterações na qualidade do sono e merece investigação

Acordar sem disposição, passar o dia recorrendo ao café para manter a produtividade e acreditar que isso faz parte da vida adulta. Essa cena se repete na rotina de milhões de brasileiros. Segundo o Ministério da Saúde, com base em estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% da população sofre com doenças relacionadas ao sono, entre elas a insônia.

Embora os distúrbios do sono possam atingir qualquer faixa etária, especialistas observam que muitos adultos jovens têm aprendido a conviver com a exaustão. Entre trabalho, estudos, filhos, deslocamentos e outras responsabilidades, o descanso acaba sendo tratado como um item negociável da rotina. O resultado é que o cansaço deixa de chamar atenção e passa a ser visto como parte natural da vida.

Para a médica pneumologista e especialista em medicina do sono Jéssica Polese, esse é um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce.”Muitos pacientes chegam ao consultório dizendo que sempre estão cansados. Eles se adaptaram a essa condição e acreditam que é consequência da idade, do excesso de trabalho ou da rotina corrida. Mas uma pessoa saudável não deveria acordar cansada todos os dias”, explica.

Segundo a médica, dormir poucas horas não é a única causa do problema. Há pessoas que permanecem sete ou oito horas na cama, mas têm um sono fragmentado, incapaz de proporcionar a recuperação física e mental necessária. “Ronco intenso, apneia do sono, ansiedade, bruxismo, movimentos involuntários e até alguns hábitos antes de dormir podem interromper o sono diversas vezes durante a noite. Muitas dessas interrupções passam despercebidas pelo paciente, mas comprometem a qualidade do descanso”, destaca.

A especialista explica que o organismo costuma encontrar maneiras de compensar a privação de um sono reparador. O consumo frequente de cafeína, a adaptação gradual ao cansaço e o esforço para manter o ritmo de trabalho fazem com que muitas pessoas adiem a busca por ajuda. “É comum ouvir que a pessoa funciona normalmente. Na verdade, ela aprendeu a funcionar cansada. Isso não significa que o organismo esteja bem”, alerta.

Os sinais costumam aparecer aos poucos. Dificuldade de concentração, falhas de memória, irritabilidade, sonolência durante reuniões ou ao dirigir, perda de rendimento profissional e falta de disposição para atividades simples podem indicar que o cérebro não está conseguindo cumprir adequadamente as etapas de recuperação durante o sono.

Outro ponto que merece atenção é que, muitas vezes, quem percebe os primeiros sinais não é o próprio paciente. Parceiros costumam notar roncos altos, pausas na respiração, engasgos durante a noite ou movimentos repetitivos enquanto a pessoa dorme.

Jéssica destaca que o sono deve ser avaliado pela forma como a pessoa se sente ao longo do dia, e não apenas pelo número de horas dormidas. “Mais importante do que olhar para o relógio é observar como você acorda e como consegue desempenhar suas atividades. Se o cansaço é constante, se existe necessidade diária de estimulantes para produzir ou se o sono interfere na qualidade de vida, vale procurar uma avaliação,” complementa.

Além de comprometer o bem-estar, a privação crônica de um sono de qualidade também aumenta o risco de hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes, depressão, ansiedade e acidentes relacionados à sonolência.

Para a especialista, o maior desafio é fazer com que as pessoas deixem de tratar a exaustão como um comportamento esperado da vida adulta. “Sentir cansaço depois de uma noite mal dormida é normal. O que não pode ser considerado normal é viver cansado. Quando isso se torna parte da rotina, o corpo está tentando mostrar que alguma coisa precisa ser investigada”, conclui.

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