A maternidade transforma a rotina, o corpo e também o sono da mulher. Entre despertares noturnos, preocupação constante com os filhos e a sobrecarga física e emocional, muitas mães passam anos convivendo com noites mal dormidas e, na maioria das vezes, enxergando isso como algo “normal”. O problema é que a privação de sono contínua pode trazer consequências importantes para a saúde física e mental.
Segundo a pneumologista e especialista em medicina do sono Jéssica Polese, o cérebro materno passa por adaptações desde a gestação, tornando a mulher biologicamente mais alerta aos estímulos relacionados ao bebê. Mesmo após os filhos crescerem, muitas mães continuam apresentando um padrão de sono mais leve, fragmentado e vigilante.
“A maternidade altera profundamente a relação da mulher com o sono. Durante a gestação e principalmente após o nascimento do bebê, o organismo entra em um estado de alerta constante. Muitas mães passam a dormir de forma mais superficial, acordam com facilidade e permanecem anos priorizando as necessidades dos filhos acima do próprio descanso”, explica a médica.
Além das demandas práticas da maternidade, fatores emocionais também influenciam diretamente na qualidade do sono. Ansiedade, preocupação excessiva, carga mental elevada e a tentativa de conciliar múltiplas funções fazem com que muitas mulheres tenham dificuldade para relaxar, mesmo quando finalmente conseguem deitar.
“A sociedade romantizou a exaustão materna. Existe quase uma ideia de que ser uma boa mãe é estar sempre cansada, sempre disponível e abrir mão do próprio bem-estar. Mas o sono não é luxo. Dormir bem é uma necessidade biológica e uma condição essencial para saúde cardiovascular, imunidade, memória, equilíbrio hormonal e saúde mental”, ressalta Jéssica.
A privação de sono prolongada pode aumentar os riscos de ansiedade, depressão, irritabilidade, alterações metabólicas e até doenças cardiovasculares. Em alguns casos, sintomas persistentes como fadiga intensa, ronco, despertares frequentes e sonolência excessiva podem indicar distúrbios do sono, como insônia e apneia, condições que muitas vezes passam despercebidas entre mães sobrecarregadas.
Outro ponto destacado pela especialista é que muitas mulheres só percebem o impacto do sono anos depois, quando o corpo começa a dar sinais mais intensos de esgotamento. “Muitas mães chegam ao consultório dizendo que não dormem bem há anos. Elas se acostumaram a ‘funcionar’ cansadas. O problema é que o organismo cobra essa conta. A longo prazo, o sono ruim afeta produtividade, humor, relacionamentos e principalmente a saúde”, afirma.
Para a médica, o primeiro passo é justamente abandonar a ideia de que descansar é egoísmo. Pequenas mudanças na rotina, divisão mais equilibrada das responsabilidades familiares e atenção aos sinais do corpo podem ajudar a melhorar a qualidade do sono e, consequentemente, a qualidade de vida das mães.
“Cuidar da mãe também é cuidar da família inteira. Uma mulher descansada consegue viver a maternidade de forma mais saudável, mais presente e com menos sofrimento silencioso”, conclui.


