elas no tiro como mulheres estao redesenhando o tiro esportivo no espirito santo

Elas no tiro: como mulheres estão redesenhando o tiro esportivo no Espírito Santo

Durante décadas, os estandes de tiro esportivo foram espaços essencialmente masculinos, técnicos, silenciosos e, muitas vezes, pouco acolhedores para quem não se sentia parte daquele universo.

No Clube de Tiro de Vila Velha (CTVV), o cenário era o mesmo: poucas mulheres frequentavam o local.

Hoje, a realidade é outra. Há turmas exclusivas, instrutoras formadas e dezenas de mulheres ocupando as linhas de tiro com naturalidade e segurança.

A virada começou de forma simples: em uma roda de conversa entre amigas. A inquietação era clara: por que aquele espaço não poderia ser delas também?

Foi assim que, em 6 de novembro de 2020, Nathália Demaria criou o “Elas no Tiro”, o primeiro curso exclusivamente feminino do Espírito Santo voltado ao ensino responsável do tiro esportivo.

A proposta era direta e potente: oferecer um ambiente seguro, técnico e acolhedor para que mulheres pudessem aprender sem intimidação.

Entre 2020 e 2021, foram realizadas seis edições. Depois, o projeto precisou ser pausado por cerca de dois anos devido às restrições governamentais à prática e à realização de cursos. Ainda assim, o movimento já tinha criado raízes. Ao todo, entre 15 e 20 cursos foram realizados no Estado, sempre com pelo menos 20 mulheres por turma.

Mas o impacto não se mede apenas em números.

“Já temos alunas que se formaram instrutoras, armeiras. Depois do ‘Elas’, já se formaram seis instrutoras”, afirma Nathália.

O que começou como porta de entrada tornou-se um caminho profissional.

“Hoje, mulheres treinam regularmente na Militibus, escolinha de tiro que passou a contar com presença feminina constante após o fortalecimento do projeto’ explica.

O movimento também ultrapassou as divisas capixabas e chegou a Minas Gerais e São Paulo. Ainda assim, é em Vila Velha, onde tudo começou,que a transformação é mais visível.

Com o amadurecimento, o conteúdo evoluiu.

“Hoje já oferecemos curso de pistola e arma longa. Em breve teremos uma novidade”, antecipa Nathália.

De acordo com o gerente do CTVV, Diego Teixeira da Silva, a participação feminina no tiro esportivo avançou cerca de 30% entre 2019 e 2026, um salto significativo no período.

Há um símbolo potente nesse movimento. Quando uma mulher domina a técnica, ela amplia o próprio repertório. Quando descobre sua capacidade, fortalece a própria voz.

Quando ocupa um espaço onde antes não se reconhecia, ela não apenas atravessa uma porta, ela redefine limites.

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Um movimento maior que o estande

O que acontece no Espírito Santo dialoga com um cenário nacional. A LINADE, a Liga Nacional dos Atiradores Desportivos, por exemplo, destaca o protagonismo feminino no tiro esportivo brasileiro, evidenciando histórias de perseverança e autossuperação que estão redesenhando o esporte. Atualmente, são 5.081 atiradoras cadastradas na base nacional.

Os números confirmam o que os estandes já revelam na prática: o tiro esportivo deixou de ser um espaço exclusivamente masculino para se tornar uma arena de realizações.

Mas talvez o dado mais forte não esteja nas estatísticas.

“É tão gratificante ver a alegria dessas mulheres. No último áudio que recebi, uma delas disse que eu salvei a vida dela.”, disse emocionada Nathália Demaria.

No tiro esportivo, mulheres têm feito mais do que aprender fundamentos e aperfeiçoar precisão. Elas têm rompido silêncios históricos, enfrentado olhares desconfiados e desmontado preconceitos arraigados. Mostram, na prática, que disciplina, dedicação e paixão não carregam gênero.

Cada trajetória carrega mais do que resultados e medalhas. Carrega coragem, permanência e transformação. E se torna um convite coletivo: repensar o papel da mulher no esporte, ampliar horizontes, reescrever narrativas.

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