o rh que falta nas escolas quem cuida de quem cuida

O RH que falta nas escolas: quem cuida de quem cuida?

Especialista alerta que escolas que concentram o RH em funções administrativas podem deixar de lado desenvolvimento, formação de lideranças e suporte aos profissionais que estão na linha de frente da educação

Quando se fala em Recursos Humanos no ambiente escolar, é comum que a área seja associada a tarefas como contratação, folha de pagamento, férias e documentação. No entanto, a gestão de pessoas dentro de uma instituição de ensino pode ir vai muito além dessas funções. Para a psicóloga organizacional Carolina Gama, a ausência de um RH estratégico em escolas particulares pode criar um ponto cego justamente em uma área essencial para o funcionamento da instituição: o cuidado e o desenvolvimento de quem educa.

Em vez de atuar apenas como um departamento pessoal, o RH estratégico participa da construção de políticas de desenvolvimento, acompanha lideranças, identifica necessidades de capacitação, contribui para a melhoria do clima organizacional e cria estratégias para retenção e valorização dos profissionais.

No ambiente escolar, essa atuação ganha características próprias, tendo em vista que professores e coordenadores lidam diariamente não apenas com conteúdo pedagógico, mas também com conflitos, dificuldades de aprendizagem.

Questões familiares, mudanças de comportamento e demandas emocionais de crianças e adolescentes também fazem parte do cotidiano desses profissionais

Segundo Carolina, ao mesmo tempo em que são cobrados por resultados acadêmicos, os professores precisam administrar relações complexas com alunos, famílias e colegas, gerando muitas vezes um adoecimento mental sem uma gestão adequada.

“Quando o RH fica limitado ao operacional, a escola pode deixar de olhar para uma dimensão importante da gestão: as pessoas que fazem a instituição acontecer”, pondera a especialista.

Nesse sentido, não se trata apenas de contratar e pagar profissionais, porém de acompanhar como eles estão, quais competências precisam desenvolver, que tipo de liderança está sendo construída e quais condições existem para que realizem seu trabalho.

Quem cuida de quem cuida?

A discussão sobre saúde mental no ambiente escolar costuma estar normalmente concentrada nos estudantes. Professores e coordenadores, entretanto, também estão expostos diariamente a situações de pressão e desgaste emocional.

O professor pode ser o primeiro adulto a perceber mudanças no comportamento de um adolescente, enquanto coordenadores pedagógicos frequentemente funcionam como ponte entre alunos, famílias, professores e direção. Essa posição exige preparo técnico, mas também recursos emocionais e institucionais para lidar com situações complexas.

Para a especialista, não é responsabilidade do professor assumir o papel de psicólogo ou resolver sozinho problemas que extrapolam sua função.

De acordo com a psicóloga, a escola precisa ter uma rede de apoio e protocolos claros para que o profissional saiba como agir diante de determinadas situações.

“Existe uma diferença entre esperar que o professor tenha sensibilidade para perceber que um aluno não está bem e colocá-lo na posição de responsável por solucionar aquela situação. O educador precisa saber identificar sinais, acolher dentro dos limites da sua função e encaminhar adequadamente. Para isso, ele também precisa ser cuidado e orientado pela própria instituição”, afirma.

Formação de professores também passa pela gestão de pessoas

Outro aspecto que pode ser prejudicado quando não existe uma visão estratégica de RH é o desenvolvimento profissional. A formação continuada muitas vezes é pensada apenas a partir de demandas pedagógicas, mas a rotina escolar também exige competências relacionadas à comunicação, liderança, gestão de conflitos, relacionamento interpessoal e manejo de situações emocionalmente desafiadoras.

No caso dos coordenadores, o desafio é ainda maior. Muitos profissionais chegam a posições de liderança pela experiência pedagógica, mas não necessariamente recebem formação específica para gerir equipes.

“Ser um excelente professor não significa, automaticamente, estar preparado para liderar uma equipe. A liderança escolar exige outras competências, como comunicação, gestão de conflitos, feedback, tomada de decisão e capacidade de desenvolver pessoas”, explica Carolina.

Nesse cenário, o RH estratégico pode atuar em conjunto com a direção e a coordenação pedagógica para mapear competências, identificar necessidades de treinamento e construir planos de desenvolvimento que façam sentido para a realidade da escola.

A gestão de pessoas não fica restrita aos funcionários, pois o ambiente de trabalho também pode repercutir na experiência dos estudantes e se refletir na qualidade do ensino oferecido.

Para Carolina, a equipe que recebe orientação, treinamento e espaços adequados de escuta tende a ter mais recursos institucionais para lidar com os desafios cotidianos.

Nesse contexto, discutir RH estratégico no setor educacional não significa transformar a escola em uma empresa convencional, mas reconhecer que educação também depende de uma estrutura de pessoas bem organizada e preparada.

“A escola não pode pensar somente em quem está sentado na carteira. É preciso olhar para quem está diante dela todos os dias. Cuidar dos profissionais não é um benefício periférico: faz parte da construção de um ambiente educacional saudável e sustentável”, conclui a psicóloga organizacional Carolina Gama.

Compartilhar esta notícia

Receba as principais notícias direto no WhatsApp!

Inscreva-se no Canal do Portal Eliana Gorritti

Leia Também:

PUBLICIDADE