Agosto de 2020. Enquanto o mundo fechava portas, uma mulher decidiu abrir a dela.
Em meio ao medo, à incerteza e ao colapso de setores inteiros da economia, nasceu um espaço improvável, e necessário.
“Eu trabalhava há cerca de 20 anos no setor de turismo, e quando a pandemia começou, todo o setor praticamente parou. As viagens foram canceladas, as vendas desapareceram e, de uma hora para outra, fiquei sem a renda que vinha da agência de viagens”, relembra Renata Oliveira.
O que poderia ter sido apenas um momento de crise se transformou em ponto de virada.
“Eu já dava algumas aulas de kickboxing e atendia alunas no formato de Personal Fighter, um treinamento que mistura técnicas de luta com condicionamento físico. Com a paralisação do turismo, essas aulas passaram a ser minha principal fonte de renda. Fiz as contas, vi que conseguia me manter, fiz um empréstimo e montei a Ladies em agosto de 2020.”
Pequeno no tamanho, com apenas 35 metros quadrados, o estúdio nasceu de uma decisão que exigiu mais do que planejamento: exigiu coragem.
Mas essa virada não começou ali. Ela já existia há anos, silenciosa.
“Trabalhar na agência me trazia estabilidade, mas eu sempre tive vontade de empreender. O medo de sair do que era seguro me prendia. A pandemia acabou mudando tudo.”
Em meio à incerteza, o que antes era complemento virou direção.
“Eu percebi o quanto o treino fazia bem para mim e para as minhas alunas. Em meio a tanto medo, aquilo virou um momento de alívio e equilíbrio emocional. Foi quando entendi que aquele caminho poderia se transformar em algo maior.”
O que começou como necessidade rapidamente ganhou outro significado. E deixou de ser apenas uma alternativa de renda.
“O que começou como uma necessidade acabou se tornando uma nova trajetória profissional”, explica Renata.
Um espaço que se tornou um movimento
A virada foi rápida. E evidente.
“Acho que essa percepção veio muito rápido. Cerca de três meses depois da abertura, eu já não tinha mais horários disponíveis para novas alunas”, conta Renata.
O crescimento não foi apenas numérico, foi orgânico.
“Precisei contratar outra professora para abrir turmas à noite, e as vagas também se preencheram rapidamente.”
O formato intimista fez diferença desde o início.
“As aulas eram com duas a quatro alunas, o que criava um ambiente muito próximo. Aos poucos, o estúdio foi se tornando também um espaço de convivência.”
E foi ali que algo maior começou a acontecer. Mulheres que chegavam para treinar passaram a permanecer para conversar. Para compartilhar. Para se reconhecer.
“Com oito meses de funcionamento, já precisávamos mudar para um espaço maior.”
E naquele mesmo período e ali naquele mesmo espaço outro movimento surgia.
“Muitas alunas estavam passando por dificuldades financeiras por causa da pandemia. Foi então que criamos o Made for Ladies, um evento pensado para que as próprias alunas pudessem compartilhar conhecimento, criar conexões e gerar negócios entre si.”

O tatame se expandiu. E virou um movimento, uma rede de conexão.
“Começaram a surgir parcerias muito interessantes. A partir dali percebi que a Ladies Combat estava se transformando em uma rede de apoio entre mulheres.”
Mais do que luta: um espaço de reconstrução
Ali, o tatame não é apenas um espaço de treino. É um território de reconstrução e de recomeços.
“Quando o tatame é ocupado apenas por mulheres, muitas barreiras desaparecem”, explica Renata.
“As alunas se sentem mais à vontade para aprender, errar, tentar de novo e evoluir no seu próprio ritmo. Em vez de competição, o que vemos é uma rede de mulheres que se encorajam e comemoram as conquistas umas das outras. É lindo de ver.”
Como então definir a Ladies Combat?
“Hoje acredito que seja as duas coisas. Um estúdio de luta e um espaço de reconstrução de autoestima.”
A resposta vem da própria vivência.
“Comecei a treinar luta aos 31 anos, e isso mudou completamente a forma como eu me vejo e me posiciono no mundo.”
E o mesmo acontece com quem chega.
“Elas chegam inseguras e, com o tempo, vão se tornando mais fortes e confiantes. A luta não transforma só o corpo — transforma a forma como nós nos vemos.”
Crescer com propósito
De 35m² para 200m².
“Acredito que esse crescimento vem de propósito e identidade. Desde o início tivemos clareza do que queríamos construir.”
Mais do que estrutura, conexão e pertencimento.
“Eu procuro ouvir muito as alunas. Muitas ideias surgem dessa escuta. Quando as pessoas se sentem parte daquilo, o crescimento acontece de forma natural.”
Porque ali acontece algo que não se ensina.
“Nosso pequeno espaço do cafézinho sempre foi um dos lugares mais disputados. Muitas vezes o treino acabava e elas não queriam ir embora.”
Conversas. Trocas. Parcerias. A nova ampliação não é estética. É resposta.
“Algumas já até brincaram pedindo um espaço de coworking.”
Por mulheres, para mulheres
A decisão foi clara: criar um espaço diferente.
“Academias de luta sempre foram ambientes muito masculinizados. Muitas alunas diziam: ‘ainda bem que achei uma professora mulher, assim fico mais à vontade’.”
Há acolhimento e representatividade.

“Ver outras mulheres ensinando e liderando também inspira quem está começando. Eu acredito que a luta não resolve um problema estrutural como a violência contra a mulher, mas contribui para o fortalecimento feminino.”
O trabalho vai além do físico. E isso muda tudo.
“Trabalhamos autoconfiança, consciência corporal e postura. Muitas passam a se sentir mais seguras e preparadas para se posicionar.”
Mais do que defesa.
“É um espaço onde desenvolvem força, coragem e autonomia. O que mais me emociona é ver mulheres que chegam inseguras… e descobrem que conseguem muito mais do que imaginavam.”
E o que não falta são momentos marcantes. Porque cada conquista carrega uma história..
“Eu choro em todos os exames de faixa. Muitas dizem: ‘eu nunca me imaginei fazendo luta’.”
Mas, por trás disso:
“Existe um ‘eu sempre quis, mas nunca tive oportunidade’.”
Renata conhece esse sentimento.
“Quando criança, eu queria lutar, mas me diziam que era coisa de homem.”
Hoje, ela ajuda a mudar essa realidade.
“Ensinar mulheres a lutar é mostrar que elas podem ocupar qualquer espaço. Quero que a Ladies Combat se torne uma grande referência.”
E mais:
“Que as professoras também se tornem referências e inspirem outras mulheres.”
Crescimento com propósito. Impacto com continuidade.
No fim, tudo se resume em uma frase.
“Cada soco tem uma história e cada treino uma cura.”, reflete.
E talvez seja exatamente isso. A Ladies Combat não ensina apenas a lutar.
Ensina a ter coragem e a não recuar.



