voce nao desaprendeu a sonhar so ficou muito boa em sobreviver

Você não desaprendeu a sonhar, só ficou muito boa em sobreviver

Tem horas em que parece que você esqueceu como se sonha. Não porque deixou de querer, mas porque passou tempo demais focada em garantir o essencial. Quando a vida exige força, estratégia, organização e presença constante, o desejo vai ficando pequeno, silencioso, adiado. Você acorda, resolve, entrega, responde, organiza, planeja. E repete. Vira especialista em seguir funcionando.

É assim que muitas mulheres chegam à vida adulta, não pela ausência de sonhos, mas pela prática diária de sobreviver ao que foi possível. E quando, enfim, há uma pausa, um pouco de espaço para respirar, aparece o vazio. A sensação de que você não sabe mais o que quer, só sabe o que precisa ser feito.

Você não desaprendeu a sonhar. Só ficou muito boa em sobreviver.

A prática da sobrevivência ensina eficiência, mas não ensina leveza. Ensina a cortar riscos, não a imaginar possibilidades. Ensina a calcular, não a criar. E quando o tempo passa, você olha para a própria vida e percebe que ela faz sentido, mas não necessariamente vibra. Que você construiu tudo com muito esforço, mas quase sempre com pouco prazer. Que você sabe o que fazer, mas não sabe mais o que deseja.

As redes sociais não ajudam. De um lado, mostram que tudo é possível, que há infinitas versões de futuro, lugares para viver, modelos de carreira, formatos de amor, estilos de vida. De outro, vendem um padrão de sucesso e felicidade estético, produtivo e inatingível. Você se inspira, mas também se compara. E o que poderia abrir o desejo, muitas vezes fecha a autoestima. Parece que todo mundo sabe o que quer, menos você.

Mas talvez o problema não seja não ter sonhos. Talvez o problema seja que os seus não cabem mais nas molduras prontas que o mundo oferece. Talvez você esteja reaprendendo a sonhar do seu jeito, no seu ritmo, com outras perguntas. Porque sonhar, depois de tanto tempo sendo prática, exige reaprender a imaginar sem já pensar no plano de ação. Exige soltar um pouco o controle. Exige confiar no que ainda não tem nome.

Sonhar, em sua forma mais honesta, é um exercício de escuta. É quando a gente começa a ouvir de novo o que nos move, mesmo que ainda não saiba para onde vai. É o espaço entre a rotina e o desejo, entre o real e o possível. E mesmo que o mundo continue exigindo que você funcione, você tem o direito de abrir espaço para aquilo que ainda não tem função nenhuma além de te fazer sentir viva.

Você não está perdida. Você está se autorizando a não viver apenas em função do que é viável. Você está se permitindo perguntar o que quer, mesmo que ainda não saiba responder. Porque antes de realizar, é preciso desejar. E antes de desejar, é preciso desacelerar o suficiente para escutar o que ainda pulsa aí dentro, mesmo depois de tudo.

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